A síndrome do "mundo mau"

«O discurso de muitos adultos de referência (pais,professores e políticos), veiculado e ampliado pelos meios de comunicação social (especialmente a televisão), descreve o mundo como um local onde só acontecem desgraças, um mundo povoado por pessoas mesquinhas e perversas (a que os americanos, por exemplo, já chamam o "mean world syndrome" - o síndrome do mundo mau).
Estando os nossos filhos sujeitos à mesma forma de pressão, não vamos estar à espera que pensem de outra maneira, a não ser que relativizemos as coisas, e que lhes mostremos os lado bom e altruístas das pessoas e da vida, e que o que está a entrar pela "caixinha das surpresas" na sala de estar, não se está a passar ali, mas algures. E que, muitas vezes, são casos isolados, mas que de tão repetidos, parecem multiplicar-se indefinidamente. Já repararam "quantas Maddies" desapareceram? Foi apenas uma mas, na nossa cabeça, todos os dias havia várias. (...).
Tentemos, por exemplo, ao jantar ou ao serão, conversar sobre outros assuntos que não seja exclusivamente as desgraças que aconteceram num mundo povoado por seis biliões de pessoas, seja o facto de o tempo estar mau, seja o de terem assassinado mais uma pessoa num local distante, impronunciável (...).
Até porque, queiramos ou não, temos que continuar a fazer a nossa vida do dia-a-dia. E mais vale fazê-lo com uma certa candura do que com o medo permanente no coração. Para um adolescente que encara a vida com algum temor, que se sente mudar e crescer, que é "empurrado pelo Bilhete de Identidade» para a adúlticia, pensar que se vai transformar num malandro ou num vítima de malandros não será, provavelmente, muito apetecível».
Mário Cordeiro in »O grande livro da adolescência».

Dei-me ao trabalho de transcrever tudo isto porque, sinceramente, há muito que me custa ver tantos filhos penalizados na sua autonomia - que foi das coisas que mais prezei na minha adolescência - por pais que se deixam literalmente paralisar de medo por esta «síndrome do mundo mau». Vigiar é uma coisa, fazer das crianças crescidas, adolescente e jovens, eternos pintos atrás das galinhas, é outra bem diferente.

Deixemos os nossos filhos respirar!

Quino, Miguelito, Obama e o Nobel dele

Obama recebeu anteontem o prémio nobel da paz. Hoje, ao ler no Público que terá dito, no seu discurso de agradecimento, que considerava o prémio como um incentivo para as mudanças que iniciou, não pude deixar de recordar uma impagável tira de Quino, constante de um dos seus clássicos livros da colecção «Mafalda».

Comentava, assim mais ou menos, o egocêntrico e filosófico Miguelito: - Pergunto-me porquê que só dão nomes de ruas a pessoas que já morreram. Como pretendem, assim, incentivar-me?

Procurando esta tira que, aliás, nem encontrei, naqueles velhos e já estraçalhados livros, deparei-me com uma outra, em que o mesmo Miguelito, esfuziante, gritava perante a proposta da Mafalda de brincarem a qualquer coisa: - Brinquemos a qualquer coisa! Seria óptimo, vamos?!!

A um, sim, é óptimo, mas a quê? em uníssono da Mafalda e da Susaninha, responde enfastiado: - Sei lá! Desde quando é que nós, os entusiastas, temos de dar soluções?

De mergulho na escola pública X

No outro dia o meu filhote protestou. Os colegas de turma, nos dias de educação física, iam para a escola com roupa comum que trocavam à hora da aula. Apenas ele levava sempre já de casa o fato de treino vestido.

Como conheço os seus hábitos de "pasmar" (conversar, rir, olhar para os outros) em lugar de fazer o que tem para fazer e de perder tudo ainda por cima, torci o nariz, mas.. - Ok, à vontade!

É evidente que as calças só regressaram três dias depois e perante a ameaça, que ele sabia que concretizaria, de ir eu própria procurá-las; não pelo seu valor - que já não eram novas, nem de boa loja - mas porque considero um mau princípio, o generalizado desrespeito de cada um pelos seus pertences, o que pelos vistos está na moda.

No ano passado, perdeu um blusão. Achei natural ir procurá-lo, já que ele não o encontrava. Percebi, então, que se me transformasse numa ET naquele momento ninguém estranharia.

Uma auxiliar de acção educativa indicou-me o pavilhão do lado. Que crise? Só se for de valores. Um contentor enorme esperava-me com pilhas de calças, calções, saias, blusões, fatos de treino, camisolas de lã, T-shirts, cachecois, sei lá que mais, alguns de boas marcas ....

Perante o meu espanto por tão inesperada manifestação de «sociedade da abundância» - estávamos afinal numa escola pública relativamente pequena e nem sequer a meio do ano, a senhora encolheu os ombros: - E ainda não viu nada. No ginásio há duas ou três vezes isso.

Era verdade. Ninguém imagina a quantidade de roupa que os miúdos deixam literalmente desperdiçada numa escola, sem que aparentemente nem eles, nem sobretudo os pais, se preocupem com o assunto.

Da feliz banalidade

Comida fumegante em cima da mesa, falta pão, ah pois desculpe vou buscar, epa ainda não trouxe o arroz, queres ice tea? hum está bem, coca-cola, mas não penses que é muita, um bocadinho só, põe-te direito à mesa, cheira bem, não cheira?....

Televisão interdita e, portanto, esquecida.

A conversa às vezes custa a arrancar, tipo guião de telenovela portuguesa, hum, como correu o dia à mãe? bem, com muito trabalho dizemos em uníssono, e rimos daquele momento coral porque mil vezes repetido e o teu, que fizeste na escola? Sinto-me a meter a segunda, mas também não me ralo, pode dar uma conversa gira ou em nada. Sem stress. Ele mete a terceira e a coisa avança:
- O T. fez hoje uma participação do J. , mas não teve razão porque o J. não fez de propósito. Estava a brincar com o telemóvel e o telemóvel caiu no chão e ele sem querer, que eu vi, pisou-o; era um daqueles cheios de botões que aparecem e desaparecem atrás do ecrã.
- Mas tu sabes quanto isso custa?
- foge-me logo o jeitinho para o moralismo.
- Pois, não sei...quanto?
- Um balúrdio! Quanto exactamente, não sei mas é caro, de certeza -
para que me meto nestas alhadas de comentar aquilo de que não percebo nada?
- ... todo espatifado e não é só ele, o X. também ali encostado à parede, a chamar os ladrões com uma psp último modelo;
linda, mãe, linda, mas ali está, tztztztz venham cá ladrões, venham cá - e a mãozita em sinal de chamar um gato - é que não esconde nada, e depois um dia fica sem ela...
-Mas para que é que o T. precisa de telemóvel?
- retorno ao tema que me interessa.
- Pois, não sei, é asmático...
- Ah bom, está bem, e tem de ser último modelo?
-É, tem razão, podia ser como o do R. que é mesmo só para telefonar, uma porcaria, mas é só para telefonar,
mas tu sabes como é, o T. gosta de mostrar...
- Não é "tu" é a mãe, já estou farta de te dizer
- não é fácil viver com uma mãe, sobretudo se essa mãe for a minha pessoa, admito, por isso, mudo rapidamente de tema.
- E o teste de história? - enfim, está bem, não melhorou, mas este assunto tinha de ser abordado com oportunidade, no dia seguinte seria tarde demais...
- Tsssssss! Seis páginas! Quatro todas certas e nas outras só umas coisitas erradas e suficiente
, só suficiente!
Baixo-me um pouco sobre o prato, em sinal de confidência e baixo também o tom de voz, para que preste mais atenção:
- Confessa que estudaste pouco. Sabias umas coisas aqui e ali, mas nada de muito sólido. Boa nota no teste anterior e já sou o maior, não preciso de estudar muito...
Sorriso maroto.
-Pois, se calhar...
- Pois, pois,
excesso de confiança, é o que é! - digo, um pouco triunfante demais com a admissão do erro, pelo que mudo estrategicamente de assunto, que não me apetece estragar o jantar, nem fazer o discurso «para o optimismo» que sinceramente sabia que ele não merecia, no caso - E a perna ainda te dói?
- (alívio na voz) Dói um bocado, mas se a mãe visse, sabe, o D., aquele que me deu com a chuteira? Bom, foi sem querer, mãe, a sério que foi, mas ele é meio esquisito: às vezes nem me fala, como se eu não existisse, e outras como hoje quando chegou falou-me muito bem, ali na conversa, a dizer graças para mim ...
- Xiii, detesto pessoas imprevisíveis...
- O que é que isso quer dizer?
- Diz-se daqueles de quem não podemos esperar que tenham uma reacção certa
- não foi uma definição brilhante, mas acho que deu uma ideia.
- Ah, pois, ele é assim, mas hoje até estava querido e pimba, logo hoje sem querer deu-me com o piton...
- E tu, choraste? Chorei, quer dizer, gritei, mas depois não, aguentei-me bem... afinal quem joga futebol tem de se habituar a estas coisas. E eu já começo a habituar-me! - orgulho ululante.
- Pois, és valente, lá isso és-
que eu não sou de regatear elogios.
- Mas que doeu, doeu...
Percebo, então, que o garfo está pousado há já dois minutos no prato e antecipo logo a pergunta que vem a seguir:
- Tenho de comer isto tudo?
- Hum, mais seis garfadas.
- Uma, duas, três, quatro, cinco, seis... ao menos a mãe não é como o pai que começa a dizer, uma, uma e meia, uma e três quartos... (
pudera, eu já dissera seis para garantir as três que queria).
- Sim, mas não te livras da fruta.
- Tem mesmo de ser? O que há?
(levanta-se para ir ver e buscar)...oops, dói-me mesmo o pé...
- Está bem, está bem, troglodita, já percebi, eu vou buscar, o que é que queres? Uvas, banana?...


Diálogo desinteressante? Pois é (este blogue é pouco divulgado para eu poder dar secas destas a mim própria quando me apetece), mas não o trocava por nenhum telejornal, telenovela, filme ou sequer documentário brilhante à hora do jantar. A conversa foi comezinha, banal, daquela banalidade de que são feitas as famílias, e é exactamente assim que eu gosto.

Sobre ela

Se o mundo terminasse amanhã, iríamos vê-la como a vimos quinta-feira, em qualquer local onde acabássemos por nos encontrar todos. E isso seria bom, na medida em que não estaria pior do que já está e do que sabemos que vai ficar. A rir, no prazer de estar viva e com amigos, a troçar do mundo, de si e da sua própria incapacidade, a dar impressão de que padecer de esclerose múltipla até nem a fez, faz e ainda fará chorar muitas noites. Cuidadosamente maquilhada, mais magra, mais bonita do que era quando, por que mais nova, nem precisava de o ser.

Há cerca de oito anos, quando o diagnóstico definitivo surgiu, liguei-lhe ou ligou-me ela. Contava a impressionante conversa com o médico, mas ria como se lhe tivesse sido diagnosticada uma doença surpreendente, mas curável: - Tive azar, dizia, parece que, em geral, surge até aos quarenta...tenho 38, foi por pouco.

Confesso que desliguei o telefone sem saber o que pensar, sentindo alguma dificuldade em levar a doença a sério: com aquela reacção não podia ser assim tão avassaladora!

Mas era. Prometi-lhe e fiz uma pesquisa na internet. Nem os motores de busca, nem a minha precisão na pesquisa eram o que são hoje, mas não tardei a perceber que era afinal muito grave, mesmo desconhecendo ainda aquele jeitinho da internet para o querias-saber-pois-aqui-tens-tudo-o que-de-pior-te-pode-acontecer.

Afadiguei-me, nesse dia, a tentar conhecer as possibilidades de retardamento dos efeitos da doença e acabei a entregar-lhe um molhinho de papeis que confirmavam, aliás, muito do que o médico já antecipara.

Nunca esquecerei a náusea indefinida que então senti e que se repetiu, tempos mais tarde, quando, no seu modo directo de não fugir às palavras, por mais difíceis, me confessou que lhe custava imaginar-se a passar grande parte da vida «com o corpo esticado que nem um carapau, mas no uso pleno das suas capacidades mentais».

Não acompanho muito o seu percurso. Vive longe ou, talvez melhor, fora de mão. Tem dificuldades em deslocar-se, tem marido e filha, novos amigos, está reformada, e dá apoio a uma associação de deficientes, pelo que as desculpas acumulam-se de ambas partes para não nos vermos mais vezes.

Mas quando algo vai mal na minha vida, revejo o seu sorriso inalterável, muito anterior e muito para lá da doença, e que me lança num almoço em que finalmente logramos ver-nos; o modo como me trata por Ani, quando está para aí virada; e, mais do que tudo, aquela fórmula peremptória e indiscutivelmente solidária - traduzida numa frase em calão cerrado que usa contra «os outros» - de, em meu benefício ou de qualquer amiga, nos fazer sentir vítimas risonhamente vitoriosas.

É, portanto, tão bom ser sua amiga hoje, como foi quando não sofria da doença - e, portanto, não por causa dela, nem apesar dela. Mas é decerto um privilégio conhece-la hoje assim, porque cada um dos seus dias é, na verdade, uma lição para uma vida inteira de quem surpreende o seu sorriso.

Não comento disparates

O presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social terá respondido um enfadado «não comento disparates», a propósito do facto de o inquérito ao fim do Jornal de 6ª estar parado há dois meses, mais exactamente desde o seu arranque - ao que aqui importa, poderia ser a propósito de outro qualquer inquérito.

Não percebi, como provavelmente a jornalista também não, onde estava o disparate. No facto de o inquérito estar parado desde que foi instaurado? Bom, se foi por isso até podemos estar de acordo (género, se era para não andar, para que estamos a gastar o dinheiro dos contribuintes com a sua instauração?).

Ou o disparate era o de lhe ter sido feita a pergunta? Nesse caso, convenhamos que se imporia um (reverencial e às "arrecuas", de chapéu rodando entre as mãos e acentuando as maiúsculas, claro): - Perguntar não ofende, não? Desculpe lá qualquer coisinha, Senhor Presidente; mas saiba que é coisa da minha profissão, esta de fazer perguntas mesmo que Vossa Excelência excelentíssima as considere disparatadas.

Acabou, o Expresso (a mesma jornalista, presumo) por apurar, por portas travessas, que não pelo senhor presidente, já que este não se dobra às minudências da sindicância da gestão da coisa pública pelos media, que o processo tinha sido encaminhado para um escritório de advogados, sem carácter de urgência, porque os prazos legais para instrução neste tipo de matérias são alargados.

(Sinceramente, podias ter dito, homem!!).